Kuarup

Esta é uma amostra reduzida do banco de imagens do ritual kuarup, ou itsatchi (na língua yawalapíti), realizado em agosto de 2012 pelo povo Yawalapíti que habita a região do Alto Xingu. O itsatchi é um ritual funerário em homenagem aos chefes mortos. Após o falecimento de um líder notório, a comunidade discute a pertinência de realizar o ritual e se empenha durante um ano em sua preparação, até a cerimônia final. No mês de agosto do ano subsequente é realizada a grande homenagem em que efígies de madeira personificam o falecido para uma última despedida. Nesta ocasião as aldeias vizinhas são convidadas para participar. O itsatchi é realizado por todos os povos indígenas do Alto Xingu como um reconhecimento mútuo da chefia das aldeias xinguanas, sendo um ritual de extrema importância para a sociabilidade local.

O banco de imagens é uma ferramenta de documentação audiovisual de relevante importância para a transmissão cultural. Ele contempla todas as fases e etapas deste ritual em uma descrição por meio de imagens, áudios, fotos e textos. Como parte de uma política de uso dos meios digitais para a documentação da cultura, o banco de imagens vem abrir caminho para um meio eficiente e duradouro de preservação cultural.

O Itsatchi é um ritual de homenagem aos chefes mortos. Entre os Yawalapíti, assim como em todo o Alto Xingu, há uma distinção entre chefes e não-chefes. A categoria de chefes, ou amulaw, é reservada àquelas pessoas que descendam diretamente de um chefe e que cumpram as premissas sociais que se espera deles. Desse modo, ser chefe não é decidido somente pela hereditariedade, mas também pela ética e personalidade. Os amulaw devem ser generosos e benevolentes, calmos e pacíficos, e devem saber ouvir a comunidade e falar por ela.

O Itsatchi é realizado um ano após o falecimento do chefe homenageado, e depende do empenho de pessoas que ocuparão uma série de posições rituais, fato que, no limite, chega a envolver toda a comunidade ativa. No ritual também podem ser homenageadas todas aquelas pessoas que faleceram entre um Itsatchi e outro, ou que ainda não haviam sido homenageadas. Dessa forma, qualquer pessoa falecida poderá ter um tronco em sua homenagem durante a festa, mas somente um chefe possui o direito de ter a realização de um ritual em sua honra.

Logo após a decisão de realizar o Itsatchi iniciam-se as etapas cerimoniais que sucedem as ações fúnebres. A fabricação de uma sepultura cerimonial, a iniciação das execuções musicais e da dança no pátio, e o início das flautas dançando de casa em casa, marcam a entrada da aldeia em seu ciclo ritual. Como momentos mais marcantes desta fase inicial temos a doação do pequi e a doação do polvilho, e nos momentos finais, a produção das efígies e reunião dos convidados de outras aldeias.

01 – Yawalapíti Putaka – Os Yawalapíti e a sua aldeia

Os Yawalapíti são um povo de língua Aruak que habita as cabeceiras do rio Xingu, lugar denominado pela literatura especializada como Alto Xingu. O Alto Xingu apresenta um cenário cultural único. A região é habitada por nove povos indígenas cujas línguas fazem parte de três troncos linguísticos distintos, a saber: Aruak, Carib e Tupi-Guarani. Os primeiros a chegarem à região foram os grupos falantes de línguas Aruak, atualmente representados pelos Yawalapíti, Mehinako e Wauja. Em seguida, movimentos migratórios fizeram com que os grupos falantes de línguas Carib se aproximassem pelo lado oriental, através do rio Kuluene. Atualmente estes grupos Carib são representados pelos Kuikuro, Kalapalo, Matipu e Nahukua. Posteriormente adentraram a região, principalmente através dos interflúvios Tapajós/Xingu/Araguaia, os grupos falantes de línguas Tupi-Guarani, representados hoje em dia pelos povos Kamaiurá e Aweti. Este processo de encontros culturais produziu uma “xinguanização” dos grupos que se integravam no sistema, o que, por sua vez, veio a modificar aquilo que é “ser xinguano”. Assim, uma base proto-cultural Aruak foi mantida e enriquecida com elementos dos povos que adentraram a região, em um processo contínuo de reelaborações culturais presente até os dias atuais.

A história dos Yawalapíti é emblemática em todo este processo. Os Aruak originários se dividiam em duas porções, ao sul com os ancestrais dos Wauja e dos Mehinako, e ao norte com os ancestrais dos Yawalapíti. A aldeia mais antiga que os Yawalapíti se recordam terem morado fica em uma região mais setentrional que as atuais fronteiras da área cultural do Alto Xingu. Esta aldeia continha uma enorme palmeira de tucum em seu pátio, e é em sua referência que surgiu o nome deste povo – Yawala, ‘tucum’, e píti, ‘lugar de uma espécie’. Devido a um histórico de guerras interétnicas, principalmente com os Trumai, os Yawalapíti decidiram mudar sua aldeia para mais ao Sul, e seguiram em expedição. Quando chegaram à boca do Toatoari, um ribeirão afluente do Kuluene, este formador do rio Xingu, decidiram dividir-se. Um grupo se assentou neste rio que é a morada tradicional dos Yawalapíti até hoje, o outro subiu o Kuluene e formou os Yawalapíti-kumã, ou ‘Super-Yawalapíti’, que acreditou-se estar isolado até o começo do século passado.

No Toatoari os Yawalapíti se estabeleceram e formaram um grupo numeroso, com abundância de festas e alimentos. Este período próspero teve fim com uma epidemia de sarampo, na segunda metade do século XVII. Já reduzidos e com dificuldades de subsistência, os Yawalapíti moravam em uma ‘fazenda’ quando o chefe Aritana foi morto. Com a morte do cacique, a pequena população se dispersou e foi morar em outras aldeias do Alto Xingu. Foi esta configuração dos Yawalapíti que os irmãos Villas-Bôas encontraram quando adentraram a região alto-xinguana. Após conhecer os filhos do falecido chefe, que à época já estavam crescidos e criados, os Villas-Bôas foram instados e aceitaram ajudar no projeto de reagrupamento dos Yawalapíti. Assim, nas décadas de 1940 e 50, os Yawalapíti se juntaram novamente e fundaram o primeiro assentamento desta conjuntura moderna.

No processo de reagrupamento foi bastante recorrente o casamento interétnico com pessoas de outros povos xinguanos. Como restavam cerca de sete Yawalapíti, a maioria parentes próximos entre si, as opções de casamento estavam nas aldeias vizinhas com cujos moradores estes poucos Yawalapíti mantinham relações de parentesco. Neste processo houve um crescimento populacional enorme, passaram de menos de uma dezena no reagrupamento, para cerca de trezentos nos dias atuais. As crianças nascidas de tantos casamentos interétnicos tornaram-se todas bilíngues, mas com o passar do tempo, foram praticando mais a língua estrangeira. Isto refletiu na atual situação linguística do povo Yawalapíti. Atualmente há somente quatro falantes ativos desta língua Aruak, todos em posição de chefia. Ainda que a maioria entenda a língua e saiba falar alguma coisa, somente estes chefes o falam no cotidiano. A maioria da aldeia fala a língua tupi Kamayurá e a língua carib Kuikuro, justamente as dos povos que mais estiveram presentes no processo de reagrupamento dos Yawalapíti. Na mídia:

A Gazeta de Cuiabá

A Gazeta de Cuiabá

Correio Braziliense

Correio Braziliense

Correio Braziliense

Correio Braziliense

O Globo

O Globo